segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

FRANCISCO


Hoje cedo, recebi uma ligação me dizendo que o meu amigo Francisco havia partido.
 "Francisco, como assim?", perguntei sem entender nada.

Na minha última ida a Natal o encontrei na mesma padaria que sempre nos achávamos, bem em frente ao meu antigo trabalho e trabalho dele há anos.

"Conte-me mais detalhes, o que houve?", ficava insistindo, como forma de que alguma explicação lógica saísse daquele telefone. Não saiu. Encontraram ontem, o seu copo sumido há uns dias.

Francisco era alto, forte, um cavalheiro, sempre disposto a ajudar e servir. O conheci quando, no meu primeiro emprego, há uns 20 e poucos anos, ele assumia o posto de segurança de toda aquela área comercial. A gente se sentia protegida mesmo, e olhe se alguém se metesse a besta! Lá estava o nosso protetor, ao mesmo tempo tão suave e tão firme.

Na época do trabalho, de tempos em tempos, ele passava por mim e perguntava: "Tá tudo bem Katharina? Precisando de alguma coisa?". Quase sempre estava tudo bem, mas hoje meu amigo, preciso entender o porquê de tanta coisa!

Há três anos, fui assaltada, numa das minhas idas a Natal, e Francisco ficou sabendo do ocorrido. Ficou tão furioso, chegando inclusive a perguntar se eu não queria que ele pegasse "aquele safado". Um dia, num dos nossos encontros casuais em Petrópolis, contei em detalhes o assalto e ele pediu para eu parar, por que ele já estava "tremendo de raiva". Lembra disso, meu amigo?

Ou Francisco querido, por que você tinha que ir tão cedo? Ficasse um pouquinho mais aqui, com a sua esposa, seus filhos, todos tão disciplinados e inteligentes, com uma educação de fazer inveja a qualquer família! Ficasse aqui, repartindo conosco a sua bondade e força, a sua amizade!

Lembra de um dia, quando eu tinha terminado um namoro, não fui para casa depois do expediente e resolvi sentar naquele espetinho para tomar uma cerveja, e você me fez companhia, bebendo da cerveja e das mágoas comigo?

Hoje você resolveu voar. Nós, pobres ignorantes dos mistérios da vida, ficamos aqui, com saudade, e agradecendo a Deus por um dia, ter conhecido um homem tão grande e bom como você, Francisco. Um dia tomamos mais uns copos!

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Que violência é essa?



"Meu Deus, você viu o rapaz que foi assassinado?"

"A criança estava na calçada de casa e foi acertada com dois tiros! "

"Foi reagir ao assalto e levou 30 facadas!"

Já ouviram frases assim? Já falou algo parecido? Já se revoltaram? Então bem vindos, somos todos reféns da mesma sociedade. Somos nós os escolhidos para servir de alvos de um sistema falido e absolutamente fragilizado. Eu, você, o advogado, empresário, padre, modelo, prostituta, político, filhinho de papai e drogado, todos nós, vítimas das mesmas balas perdidas nessa floresta de dor.

Segundo os dados mais atualizados do portal www.mapadaviolencia.org.br, numa comparação de um mapa da violência de 1998 com um de 2011, resultam num brutal incremento dos homicídios a partir dos 14 anos: as taxas pulam de 9,2 homicídios por 100 mil para 69,3 na idade de 21 anos. A partir dessa idade, tem um progressivo declínio. São taxas de homicídio, nessa faixa jovem, que nem países em conflito armado conseguem alcançar.

Somos nós. Nossos vizinhos, conhecidos, parentes, filhos. A morte como uma banalidade. Um assalto, um "acerto de contas", uma briga de escola, uma provocação, um preconceito, não importa, a vida é só um detalhe mesmo!

Não, a vida não é apenas um detalhe, eu não aceito isso! A minha, a dos meus filhos, da minha família, dos meus amigos, a sua vida é rara e necessária, ninguém tem o direito de tirá-la.

Já fui assaltada, já tive o cano de um revolver na minha cabeça, me lembro do hálito do infeliz me alertando: "Dona, a senhora deu bobeira!" Dei bobeira por entrar em casa? Dei bobeira por desligar o carro e não sair correndo desesperada para fechar o portão? Dou bobeira por acreditar que posso dirigir, andar na rua, ir a um restaurante à noite, comprar pão na padaria, ir a uma farmácia? Não, o nome disso não é "bobeira", o nome disso é direito de viver e eu exijo o meu.

Mataram um rapaz de 28 anos por nada. O nome dele era Chicão. Era um artista. Um dia tatuou um sol em mim. Tinha planos, muitos, para a sua vida. Pois é menino Chicão, eu também tenho muitos planos e vou continuar a tê-los, não desistirei de nada. Por todos, por você.





segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Whatsapp: o escravizador


E cadê o “dar tempo ao tempo”? Quem falou que eu tenho obrigação de responder a um whatsapp seu instantaneamente? E se por um acaso visualizei a sua mensagem, onde está a regra determinando a minha obrigação de resposta imediata? Você sabe se eu posso? Se eu quero?

Pois bem, independente de qual momento da era tecnológica e virtual nós nos encontramos, não me cabe mais a paciência e compreensão de certas “obrigações virtuais”.

Essa ânsia desesperada, essa falta de privacidade, essas loucuras do imediato me cansam e me irritam, considero uma verdadeira falta de respeito, ou melhor, uma perda de tempo, do nosso valioso e poderoso tempo.

Grupo da família, do trabalho, dos colegas da faculdade, do condomínio, dos pais dos amigos, do bairro, do vendedor de TV por assinatura, dos amigos do jardim de infância, dos clientes da padaria... chega!

Queridos, eu preciso trabalhar, cuidar da casa, pagar as contas, me alimentar, dirigir, namorar, servir de motorista para os filhos, ir ao banheiro, dormir, coisas normais que pessoas normais fazem (pelo menos eu acho!).

Entendam bem, não estou aqui crucificando a inovação e utilidade dessa ferramenta verdinha nas nossas vidas, longe de mim, estou apenas informando que eu preciso viver além dela, simples assim.

Adoro ver fotos atualizadas daquelas pessoas que eu amo e nunca mais vi, receber piadas e vídeos engraçados, “conversar” com amigos distantes, adoro! Quando tenho tempo.

Aos queridos amigos e grupos, que me enviam mensagens a cada milésimo de segundo, que, por mais que eu carregue o celular diversas vezes ao dia, a bateria dura exatos 6 minutos, deixo aqui um aviso: amo todos vocês, mas não se preocupem comigo, ou pensem que eu morri quando eu não responder uma mensagem assim que a receber. Acreditem, em algum momento a lerei e caso seja interessante ou importante, a responderei o mais breve possível.

Agora vamos deixar uma coisa combinada, só entre nós dois ok? Se for uma urgência, e você estiver mesmo precisando falar comigo, me ligue, use daquele “dispositivo de telecomunicações desenhado para transmitir sons por meio de sinais elétricos nas vias telefônicas” (Wikipédia), desenvolvido por um maluco chamado Alexandre Graham Bell, tenho certeza que a probabilidade de eu atender a sua ligação é bem maior.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

DESPERSONALIZANDO




   Hoje, não se admite a diferença. Somos bonecos, moldados na mesma fôrma. A política da neurose da igualdade nos torna menores, tímidos. Aquilo que eu sou, eu sou. Mas eu não sou você, nunca serei. As nossas criações, atitudes, interações, palavras, ações, são só nossas. Só minha. Só sua. Chega de tanta despersonalização!

   A minha roupa, o meu cabelo, a minha voz, a minha letra, é diferente da sua, somos diferentes e isso é óbvio e especial. Assim como é claro também que podemos nos unir nessas diferenças e deixar tudo menos discriminatório e estúpido.

   O padrão de beleza, a definição de riqueza, de sucesso vão se construindo na proporção em que se coloca amor e empenho na família, no amor, no trabalho, nas amizades, nos sonhos, na profissão, na construção da nossa marca.

  Podemos estar mortos agora, vivos. Respirando e mortos. Cheios de chances, escolhas e opções (mesmo que carregados de sofrimentos inevitáveis e reais), e mortos.

   O conformismo de fazer exatamente a mesma coisa que o outro está fazendo não é bonito. O eu me sentir bem é o fundamental e o que vai me deixar feliz na construção (com respeito) da minha essência. O fazer é primordial, o exemplo, a dignidade, não o que aparenta ser.

    Precisamos marcar o mundo, cada um de nós, diferentes e únicos. Ainda há tempo!


terça-feira, 4 de novembro de 2014

O dia para começar


E se for pesado, deixe
E se for escuro, ascenda 
E se for amargo, adoce
E se der vontade, chore 
E se acordar, agradeça

E se doer, cure
E se tiver preso, solte
E se tiver demais, desapegue
E se valer a pena, faça

E se tiver como ir, vá.
O dia para começar, realizar e ser é exatamente esse, hoje.

domingo, 26 de outubro de 2014

DESCULPE, FOI ENGANO



Desculpe, foi engano, pensei que era outra pessoa!

Alguém mais humano mesmo, que aceitasse os outros como eles são, sem julgamentos, nem muito menos determinações de atos e palavras.

Acreditei que você fosse outro, daquele tipo que enxerga nas relações humanas um ponto de partida para se conhecer sempre mais e melhor, tendo a consciência que todos são únicos, cada qual com a sua sabedoria e que sempre temos mais a aprender.

Claro que você não seria a pessoa que achava ter reencontrado, ela é bem menos ácida e perversa, bem menos crítica e grosseira.

Me enganei mesmo, achando que você poderia ser aquele que tem a educação, a polidez e a gentileza como padrão de comportamento, e transfere isso aos seus filhos, como regra básica de vida.

Escreveria várias coisas sobre aquela pessoa que quando encontramos, fazemos questão de um abraço forte, e, claro, não seria nunca você.

Você denigre, agride, subestima, ofende, critica, diminui, machuca os outros, sem ter a mínima noção do quão pequeno és. Um minúsculo ponto turvo, no meio do nada, preso nessa atmosfera social que teme em usar o poder temporário como arma. Um poder que passa...

Todos os poderes passam, a não ser o da sabedoria e o do amor, acredite, pobre pessoa turva!

Desculpe, próxima vez não a confundirei com ninguém, nem se preocupe, tomarei bastante cuidado. Não vou deixar que uma mera distração minha, lhe compare com simples humanos que abraçam quando gostam, riem quando estão felizes, agradecem quando merecem e se desculpam quando erram.

Mais uma vez lhe peço desculpa, foi um grande engano, graças a Deus!


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

E SE O ELEVADOR QUEBRAR...

Eu lembro que ouvi o alarme, mas o ignorei, pensando que era sonho (ou forçando ser). Nesse intervalo de tempo, que parecia ter durado exatos 3 minutos, perdi a hora e me atrasei mais de trinta. “Infeliz do alarme com som de pássaros!”

Como já não havia tempo reserva para uma checada no insta,Twitter e no jornal impresso antes de sair de casa, já me emputeci com a certeza de não saber de nada do que acontecia no mundo e na minha cidade, desde ontem a noite.

Café preto, pão com manteiga (gelada!) e um copo d'água com um poli vitamínico para espetar, saio de casa apressada, tentando lembrar a letra de uma música de Vander Lee que fala de “rever a vida, a luta e valores...”.

Conforme passei do tempo estabelecido pelo centro da cidade, que determina se você estacionará a cinco metros ou a um quilometro do seu destino, parei o carro umas seis quadras depois do meu trabalho. "Tudo bem, faço um exerciciozinho", pensei tentando ser positiva.

Já suada, cabelo parecendo que estava numa cozinha fritando coxinha, chego ao trabalho.
“Bom dia!”, desejo ao recepcionista, que me da um sorriso no canto da boca, esboçando nenhuma vontade de ser simpático ou de retribuir.

Para o meu mais intenso encantamento pela vida, a moça do cafezinho grita lá de perto da escada: "O elevador está quebrado! Uma pessoa já ficou presa hoje cedo!

Tudo bem, subo os 86 degraus contando um por um, abrindo e fechando as mãos, naquela fisioterapia básica para circulação, sabe?

Quase sem respirar, chego. “Obrigada Deus, por me mostrar tão discretamente que estou gorda, impaciente e me testar, estimulando o meu crescimento espiritual”, penso.

Planilha, agenda, uns duzentos e-mails para responder, imprimir, digitar, arquivar.... “Vai dar tudo certo, o dia está apenas começando, a vida é bela”, repetia como um mantra.

Consegui vencer o expediente com maestria, uma adulta fiel à perseverança e com linda postura profissional. Nada pendente, maravilha!

Me despeço da turma, solto uma piada com a colega que está namorando virtualmente e ainda não conhece o futuro noivo e vou.

Já dentro do elevador (que por sorte minha estava no meu andar!), aperto o P e suspiro um suspiro de alívio.

Depois de aproximadamente uns três segundos da porta do elevador fechar, um susto. Um forte barulho e um movimento brusco (será que a minha coluna encolheu??? ), faz o elevador parar.

O elevador estava quebrado, tinham me dito! Como posso ser tão absurdamente burra a esse ponto?

Desisto. Aperto o alarme, sento no chão do elevador, pego a serrinha de unha na bolsa (quase não a acho, sem energia!) e vou dar uma geral nas unhas, com o esmalte já descascado.

“Aguarde um pouquinho que a gente já chamou o técnico, viu? Tenha paciência que você sai já daí”, grita a mesma moça do cafezinho.

“Tem problema não, estou sem pressa, o pior já passou!”, passava na minha cabeça, coberta com aquele cabelo de fritar coxinha.